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Os principais desafios que o próximo prefeito de Manaus vai enfrentar

Especialistas comentam sobre temas cruciais como habitação, mobilidade urbana, infraestrutura, saneamento básico, educação e segurança.

Por Redação - [email protected]

24/10/2024 às 15:13:03 - Atualizado há

Neste domingo (27), os manauaras vão às urnas para eleger o novo prefeito que governará a cidade pelos próximos quatro anos. A disputa está entre David Almeida (Avante), que busca reeleição, e o deputado federal Capitão Alberto Neto (PL). Independentemente do resultado, o próximo gestor enfrentará diversos desafios. O Portal destacou algumas dessas questões e conversou com especialistas sobre temas cruciais como habitação, mobilidade urbana, infraestrutura, saneamento básico, educação e segurança.

De acordo com o Censo 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Manaus foi a metrópole brasileira que mais cresceu em população desde o último recenseamento, saindo de 1,8 milhão, em 2010, para 2,06 milhões em 2022, ganhando em média 17 mil moradores por ano. Mas essa alta fez a capital amazonense enfrentar problemas habitacionais e de saneamento básico, que, inclusive, está entre os 20 piores do Brasil, conforme o Ranking do Saneamento 2024.

Moradias e saneamento básico

"Por exemplo, Manaus tinha, no último censo demográfico, quase 5 mil pessoas que moravam em lugares que não tinham banheiro. Apenas 16% das pessoas moram em residências em que tem coleta de esgoto, onde a pessoa abre a torneira da pia ou da descarga no banheiro e essa água será coletada e será levado para algum lugar. Quando se fala em coleta, não se está falando necessariamente de tratamento. A maioria dos condomínios da cidade, por exemplo, tem um sistema de coleta de esgoto interno e esse esgoto é jogado no igarapé mais próximo", pontua o sociólogo e professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Luiz Antônio.

Ele destaca que uma das tarefas mais urgentes é a implementação de um amplo programa de coleta de esgoto. Isso envolve integrar banheiros e torneiras a um sistema público de esgoto, que leve os resíduos a uma central para tratamento. Essa medida pode reduzir significativamente as demandas relacionadas à saúde pública. Dados da Unesco e do Ministério da Saúde mostram que a maioria das internações de crianças de 0 a 5 anos é por doenças evitáveis, frequentemente transmitidas por água contaminada e esgoto poluído.

Secretaria de Habitação – (Foto: Asafe Augusto/ Arquivo/ Semcom)

"É fundamental que o prefeito tome a iniciativa de ir à Câmara Municipal e declare que uma de suas prioridades é reduzir o déficit de saneamento público. Minha meta é construir 50 mil metros cúbicos, ou seja, 50 quilômetros de tubulação de esgoto na cidade. Para isso, precisarei de X milhões de reais e de um orçamento, um plano de trabalho e consultoria técnica adequados. É crucial realizar uma licitação pública transparente, contratar empresas capacitadas e implementar o programa. O problema é simples: Manaus possui um bom orçamento. Cada quilômetro adicional de sistema de coleta de esgoto representa milhares de crianças menos expostas a doenças, resultando em menos impactos na área da saúde", diz Luiz Antônio.

Em relação a questão habitacional, para o especialista, uma das estratégias fundamentais é que a prefeitura se comprometa com o orçamento próprio e busque orçamento público, federal e estadual para construir moradias.

"Estratégias que têm sido implementadas em São Paulo e em outros estados incluem a reutilização de prédios abandonados, especialmente nas regiões centrais das cidades. Por que nas áreas centrais? Porque lá já existem todos os equipamentos públicos necessários. No centro, há transporte público em funcionamento, escolas abertas, serviços de esgoto e postos de saúde nas proximidades. Se você reutiliza esses imóveis fechados, como o governo Lula acaba de autorizar, permitindo que a Secretaria de Patrimônio da União destine imóveis, como o antigo prédio da Receita Federal, para moradia, isso pode fazer uma grande diferença. A Prefeitura deve cooperar com movimentos sociais, além das esferas federal e estadual, para transformar esses prédios abandonados em soluções habitacionais", frisa.

asfalto

(Foto: Marcio Melo/Seminf)

Infraestrutura

A infraestrutura é um aspecto fundamental que a nova gestão precisará abordar com urgência. Um dos principais desafios da cidade são os alagamentos que ocorrem durante o período chuvoso, afetando diversas avenidas e bairros. Nas áreas periféricas, esse problema é encabeçado pelo crescimento demográfico desordenado, segundo especialistas.

Professor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade de Brasília (UnB) e autor de pesquisas sobre cidades da Amazônia, Fernando Luiz Araújo Sobrinho afirma que o crescimento demográfico é reforçado devido à capital amazonense também receber migrantes de outros países, principalmente fronteiriços, o que torna ainda mais necessário dotar a cidade de infraestrutura para esse crescimento urbano.

Outro ponto importante a ser considerado pelo novo prefeito é a condição das ruas. Em 2022, a gestão de David Almeida lançou o programa "Asfalta Manaus", que tinha como objetivo o recapeamento de 10 mil ruas até o final do mandato. No entanto, essa meta não deverá ser alcançada, o que significa que o próximo prefeito terá a responsabilidade de dar continuidade a essa iniciativa.

(Foto: Eliton Santos/Semed)

Educação

Em relação à educação, o professor Luiz Antonio destaca que, sob a perspectiva das políticas públicas, há uma oferta razoável de escolas, tanto na cidade quanto na zona rural, o que diminui a urgência na construção de novas escolas municipais de ensino fundamental. No entanto, ele ressalta que cerca de 20% das escolas municipais carecem de equipamentos adequados e funcionam em prédios alugados, muitos dos quais são impróprios para a educação. Isso levanta uma questão importante: como uma criança pode aprender e desenvolver suas habilidades cognitivas e artísticas em um ambiente inadequado?

"Outro problema crítico é a falta de creches. Mesmo quando tem disponíveis, muitas vezes estão localizadas em áreas com baixa demanda, enquanto nas periferias, onde as mães trabalhadoras necessitam de creches próximas a suas residências, a oferta é escassa", opinou.

O professor aponta que tanto a saúde quanto a educação são setores que enfrentam problemas sérios de gestão financeira, resultantes de corrupção, licitações mal elaboradas e contratos sem a devida transparência. "Essa situação impacta decisivamente a qualidade da educação, que permanece em níveis insatisfatórios", pontua.

Trânsito

O trânsito é um antigo problema enfrentado pelos gestores de Manaus e continua a ser um gargalo significativo na cidade. Com o aumento da frota de veículos e a expansão populacional, as vias urbanas enfrentam sérios desafios, como congestionamentos constantes e falta de infraestrutura adequada. Essa situação não apenas impacta a mobilidade dos cidadãos, mas também afeta a qualidade de vida, gerando estresse e atrasos no dia a dia.

David fez alguns avanços na questão da mobilidade urbana em Manaus com criações de passagens de nível, alargamento de avenidas e obras de viaduto, como do Rei Pelé, na avenida Autaz Mirim, que visa desafogar o trânsito na Zona Leste de Manaus, além de entregar ônibus com ar-condicionado e câmeras de segurança.

No entanto, apesar disso, os coletivos enfrentam críticas constantes dos usuários devido à demora nos serviços e à precariedade dos ônibus que circulam pelos bairros.

"A população não confia no sistema de transporte público, pois percebe que, o serviço é demorado, desconfortável, inseguro sendo impossível cumprir suas demandas e chegar no horário adequado em suas atividades", diz o engenheiro de trânsito Manoel Paiva.

(Foto: Antônio Lima/PORTAL AM1)

O especialista pontou algumas melhorias que podem ser feitas a curto e logo prazo para melhorar a mobilidade urbana da capital amazonense. "Priorizar a operação do transporte coletivo urbano para aumentar a velocidade comercial, diminuir o tempo de viagem e espera do passageiro. Melhorar a segurança viária com programa de redução de acidentes de trânsito, para diminuição das vítimas fatais e lesionadas. Priorizar os pedestres com programa de implantação de calçadas, passarelas viárias, sinalização adequada, faixas de pedestres iluminadas", essas medidas seriam a curto prazo.

A longo prazo, conforme Manoel Paiva, poderá ser feito o planejamento urbano, controle do uso e ocupação, priorizar o interesse coletivo na expansão da cidade. Modelo de ocupação de Curitiba – PR, com a verticalização ao longo dos corredores estruturais e estratificação das atividades de comércio, lazer, estudos, serviços e industrial.

Além disso, planejar um novo modal de transporte urbano de massa que integre o Transporte Coletivo Urbano com o Transporte de Fretamento do PIM, conectado ao Transporte Intermunicipal, aos veículos de duas rodas e ao transporte hidroviário de passageiros.

(Foto: Valdo Leão / Semcom)

Segurança

A segurança pública foi um tema amplamente discutido durante a campanha, especialmente no que diz respeito ao papel da Guarda municipal. Ao Portal , o Coronel Walter Cruz, especialista no assunto, disse que a prefeitura deve colaborar com o Estado, enfatizando a importância da integração e do planejamento estratégico para melhorar a questão na cidade.

"Manaus está entre as cinco capitais mais violentas do país e entre as 25 cidades mais violentas do mundo por causa de seus índices de homicídio, assaltos e furtos. Eu vejo que a prefeitura tem, sim, um papel colaborativo com o Estado e penso que há um princípio chamado integração que ele pode ser usado. Na verdade, isso precisa de planejamento para se verificar quais são as prioridades e investimento", reforça.

O coronel defende a necessidade de investir em tecnologia e no treinamento adequado da Guarda Municipal, que poderia desempenhar um papel mais ativo e eficaz na segurança da cidade. Ele sugere que a Guarda deve ser mais visível e acessível à comunidade, agindo como facilitadora e orientadora, ao mesmo tempo em que impõe respeito.

Ele avalia que a proposta de armamento para a Guarda Municipal é vista como uma medida necessária, considerando que os guardas podem se deparar com situações de risco, como roubos armados. O especialista acredita que, com a formação e os recursos adequados, a Guarda pode atuar de maneira mais segura e efetiva no combate à criminalidade.

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